Pelos Cotovelos e Cotovelinhos

  • Até quando?

    01/04/2013
    Categorias: Pelos Cotovelos

    LETÍCIA E MIGUEL

    Na última vez que pus em pauta a questão do direito de escolha do parto ouvi de uma pessoa próxima a mim a seguinte acusação: “fácil para você, que teve duas cesárias, fazer campanha pelo parto normal”. Perdoada a ignorância da minha colega, antes de mais nada, quero deixar claro que não é nada fácil ser uma defensora do parto normal tendo tido dois partos cirúrgicos. Pelo contrário! Mesmo sabendo que foram absolutamente necessários, trarei sempre a frustração de não ter dado à luz os meus filhos da maneira como sempre desejei.

    Eu tive dois partos cirúrgicos sim! O primeiro de emergência, após um trabalho de parto prematuro decorrente do falecimento de uma das meninas e diante da necessidade de garantir que a Laura vivesse. O segundo, por início de sofrimento fetal, depois de 14 horas de trabalho de parto sem sucesso. Foram duas cesáreas absolutamente necessárias, com o meu obstetra ao meu lado o tempo todo.

    No entanto, me assusta ler matérias como a publicada ontem na Folha de S. Paulo sobre gestantes que estão dando um “jeitinho” para conseguirem ter seus planos de saúde cobertos por seus planos de saúde. Até quando? Com tanta discussão em torno do assunto, como uma operadora de plano de saúde pode se recusar a fazer a internação de uma paciente em trabalho de parto via pronto-socorro?

    E não é apenas a operadora que está errada, mas os hospitais conveniados por aceitarem esse tipo de contrato, os corretores de seguros por venderem planos a qualquer preço e não esclarecerem aos contratantes o que essa cláusula significa no momento da contratação.  Se eu fosse a cliente, mesmo tendo precisado de atendimento cirúrgico não teria sido aceita nesses hospitais ou por essa operadora porque não agendei o parto de forma eletiva! Teria acontecido comigo! O que eu deveria dizer na recepção do PS? Desculpe, eu não sabia que uma das minhas gêmeas morreria hoje e por isso não agendei o parto antes?

    Até quando o sistema de saúde do Brasil vai incentivar e dar preferência ao parto cirúrgico que oferece muito mais riscos à gestante e ao bebê? Uma operadora de saúde deveria ser proibida de colocar uma cláusula como essa em um contrato ou deveria mudar seu nome para operadora cirúrgica! A Agência Nacional de Saúde (ANS) diz não ter recebido nenhuma queixa sobre o tema.  Isso acontece porque o brasileiro não sabe que tem direito a reclamar e quando sabe, não confia que seu esforço será efetivo. Uma matéria no jornal, a meu ver, já é matéria-prima suficiente para investigar estes contratos e exigir imediata correção dessas cláusulas.

    Fico me perguntando se não seria o caso de deixarmos de lado o código de defesa do consumidor, as queixas à ANS e começarmos a encarar essa falta de atendimento, de amparo e de socorro à gestante como crimes de violência contra a mulher!

    Leticia Volponi

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